terça-feira, 21 de maio de 2013



A VIDA É ISSO?

A vida é isso?
Esta tarde quente?
O antigamente?
A vida é isso...
Raízes na terra se infiltrando.
Mãos aos céus clamando
A vida é a soma.
É subtração?
Não.
É multiplicação... e outras horas divisão.
Sigo... posso observar a vida quando me recolho ao mundo calado.
Também no mundo agitado.
Dizem.
É pecado.
Que é pecar?
Armas contra si mesmo atirar?
A vida é a pena que na água flutua.
É a verdade nua e crua.
A vida é este bem que nem sempre sabemos valorizar.

 sonia delsin 


PASSOS

Seus passos eu ouço.
Se estou maluca?
Não creio.
Eu leio.
Tão compenetradamente eu leio.
E lhe ouço chegando.
Você vem me visitar.
Paro de ler.
Fico a observar.
Tudo parece parado no ar.
Fecho os olhos e sua imagem consigo divisar.
Nas dobras do tempo.
No ontem.
Pai, eu lhe ouço chegando.
Parece-me que meus passos você vem acompanhando.

sonia delsin 


NAS ENTRELINHAS... NAS ENTRELINHAS

Tudo pode ser destruído por besteira.
Por besteira.
E pode-se arrepender a vida inteira.
Hoje notei nas entrelinhas...
Notei algumas agulhinhas.
Talvez ainda desejássemos costurar o que foi rasgado.
Mas tudo faz parte do passado.
Noutros tempos o que eu não teria dado?
É humano errar.
Persistir no erro e continuar...
Ah! É outra história.
Não cantemos vitória.
Chorei demais eu confesso.
Se hoje eu rezo?
Sempre rezei.
À minha maneira.
À minha maneira.
Melhor erguermos a bandeira.
Paz.
Tremular a bandeira.

sonia delsin 


CURVA DE RIO

Murchou a rosa vermelha tão bela.
Eu a colocava no parapeito da janela.
Para que o orvalho da noite a renovasse.
E ele a renovava.
Era tão bom tudo que você me dava...
O amor, o carinho, as rosas...
As brancas, as amarelas, as rosas vermelhas...
Era paixão.
Era afeto.
Eu preparava seu prato predileto.
E seguíamos a vida assim.
Eu pensava que o rio da vida seguia.
Que viveria sempre e sempre em sua companhia.
Mas houve um desvio.
Nos perdemos numa curva de rio.

sonia delsin 


DIÁRIO DE UMA SONHADORA

Ela lia.
Ria.
Se divertia...
...
Com o mundo enquadrado naquele livro.
Era o mundo que queria.
Pura fantasia.
Deus! Quanta alegria ela sentia.
Sim, era o mundo que desejava.
Ela sonhava...
...
Com coisas que vão além da imaginação.
Pura ficção.

Ver desmoronar um castelo arrebenta o coração.
Mas ela ainda queria alimentar a ilusão.


sonia delsin 


não me entrego

Eu morro
Mas não me entrego
Eu nego
Que te amo tanto.
É duro, no entanto.
Porque meu olhar conta.
Quando a lua desponta.
Cada uma que a vida apronta!

Fui te conhecer.
Por que não consigo te esquecer?
Será que foi uma praga que me rogaram?
Será que me enfeitiçaram?
Existem fadas madrinhas e bruxas soltas pelo mundão afora?
Só queria ouvir tu me dizendo que me adora.
Será que estou apelando agora?

Mas para ti não me entrego.
Eu sempre nego.

sonia delsin 


BICHO HOMEM

Como são belas as matas!
Com a diversidade da fauna e da flora.
Pena que os habitantes não parecem tão preocupados com as matas que morrem.
Com as matas que somem...
Estranho este bicho homem.


sonia delsin 


AS LANÇAS DO TEU OLHAR

Um dia eu te falei.
Não venhas furar meus olhos com as lanças do teu olhar.
Chega de me magoar.
Um dia eu falei.
No futuro terás muito o que pensar.
Que recordar.
Um dia eu te falei.
Minha falta vais sentir.
Quando de ti eu partir.
E fui...
Voei para outros recantos.
Sofri nos meus cantos.
E me encontrei.
Muito eu me dei...
Eu pensei.
Mas está tudo acabado.
É finito.
É passado.
E tu?
Que é feito de tuas palavras?
De teus olhares fulminantes?
Será que te enraiveces como antes?

sonia delsin 


BOLHAS DE SABÃO

Que tempo bom!
Que tempo bom!
Eu fazia bolhas de sabão.
Na água da banheira eu me esbaldava.
E bolhas criava.
Que tempo aquele!
Que saudade eu tenho da minha meninice.
Uns diriam.
É tolice.
Mas qual!
Na infância tudo é especial.

sonia delsin 


SIMPLES DOR DE AMOR

Ela seguia.
Levava no grande coração uma simples dor.
Uma dor de amor.
Ria.
Quem a via...
Ah! Quem a via imaginava.
-- Que mulher feliz está aqui.
Sim, ela ria.
Feliz parecia.
Mas quem diria?
Chorava quando morria o dia.
Para si mesma dizia.
-- Menos um, menos um...
Menos um dia para sofrer.

Até que aconteceu o inesperado.
Ela foi esquecendo o passado
Foi esquecendo e encontrou alguém que a balançou.
Nunca mais ela chorou.

sonia delsin 


PELE ARDENTE

Tantos anos e ela ali. A esperar? A sonhar?
Ela ali a olhar.
A água do rio a passar... a passar.
Um pássaro livre a voar.
O canto.
Ah, o canto do sabiá.
Ela ali.

Mila, uma bela mulher.
Lindos olhos cor de violeta.
Uma tristeza no olhar.
Sua história aqui vou contar.

Menina ela corria pelo campo.
Tão bonita com seus cabelos dourados.
O corpo espigado.
Os olhos encantadores.
Ela no meio das flores.

Um homem a espiava.
Ele a rondava.
Inocente ela nada notava.

Ele a violentara e ela nada falara.
Da infância esta marca lhe ficara.

Adolescente, ela tão crente.
Tão intensa com seu jeito circunspeto.
Uma mocinha diferente.
Diferente.

As dores... as dores.
Das dores vou falar.
Eram dores de matar.
Ela a morrer, ela a chorar...
Enquanto o sol lá fora brilhava, ela morria, ela desfalecia.
Era um quadro triste, mas era poesia.

Da longa doença... das dores eu também tinha que falar.
Mas um dia haveria de acabar.
E acabou.
Outro ciclo começou.

A doença a derrubou, e a transformou.
O formão da vida a moldou.
Uma mulher fortíssima a vida preparou.

Um dia o seu príncipe chegaria.
Um dia.
Ela acreditava. Ela esperava.

E aconteceu. Seu amado chegou.
Não veio montado no vento.
Nem em um cavalo branco.
Chegou simplesmente.

Eram abraços e beijos...
Eram desejos.
E sonhos.

Realizá-los.
Sim, realizá-los.

Que longa estrada ela percorreu até chegar aquele corredor comprido.
Ele a esperava ansioso.
Lindo no seu terno branco...
E ela linda, linda. Uma noiva sorridente.


Um dia um choro a comoveu mais que tudo na vida.
Um choro e uns olhos.
Uns olhos que a fariam amar a vida com toda a força.
E fariam chorar todas as lágrimas.

Seu bebê. Seu bebê.
Ela se deitava ao lado do recém nascido e pensava.
O mundo começava e terminava ali.
Aquela criança.

Quanto sofrimento os esperava!
Eram fortes.
Tudo superavam.

Sete anos se passariam até que outro bebê a comovesse novamente.
Ele chegou numa fria manhã e seu mundo mudou.

sonia delsin 


FALAR É FÁCIL

É fácil falar.
É fácil dizer.
Mas vá fazer.

É difícil sofrer.
É difícil não ter.
Só estando dentro pra entender.

O menino pegava latinha.
O menino comia sardinha.
Lia à luz da lamparinha.
Só estando lá pra saber.

O menino sonhava com grandes feitos.
No mundo não enxergava defeitos.

Ele queria ser instruído.
Na vida não queria ser um perdido.

Já tinha visto muita gente morrer.
O irmão fora baleado por uma bala perdida.
A irmã caíra na vida.

sonia delsin 





ROUPAS SURRADAS

cansei dos ecos das risadas
cansei de tantas coisas passadas
das roupas surradas
que vejo a balançar
são varais do tempo
elas já secaram, molharam, ressecaram...
novamente molharam e secaram
...
e ao sol se balançaram
vieram os ventos e as estraçalharam

quem sou eu a avistar um varal com trapos dependurados?
são fatos passados

quem sou a sorrir e chorar?

quem sou eu que não posso me afastar?
do comum e do incomum...
sou todos os trapos que se agitaram
e sou nenhum

sonia delsin 





MATAR UM AMOR

eu precisava matar o amor que sentia
que agonia!
eu precisava me libertar
falava deste amor em prosa e poesia
e ele não entendia
eu precisava aquele homem esquecer
para continuar a viver
pensam que é fácil?
no coração um punhal enterrar
e nosso amado retirar?
são dores superadas
fases amarguradas
caíram nos museus do tempo
mas vez em quando voltam
quando deparo com um retrato
com uma frase
ou um filme
um livro
então penso
se de todo não esqueci
dos males o menor
sobrevivi sem ti

sonia delsin 


ABSTRATO
        
hoje estou assim
quanto mais eu ando,
quanto mais me aprofundo no jardim,
mais me perco de mim

sonia delsin 



SUTILMENTE

encoste a porta quando sair
vá silenciosamente
sutilmente
não faça estardalhaço
na minha vida tu foste um pedaço
uma peça de quebra-cabeça
uma partezinha do grande mosaico


sonia delsin 


ANGELICAL

ela tem um rostinho
um jeitinho
um jeitinho que é só dela
a vejo tão bela
silenciosa Carmencita
o Alzeimer chegando
prejudicando
o esposo a amparando
eu a estreito em meus braços
afago seu rosto
e sinto um desgosto
seu corpo miúdo
seu rosto angelical
acabam me fazendo mal

sonia delsin 


ACALANTO

não corra
não morra
não mate em mim este amor
não cause mais dor
não pense que vou me perder pelos caminhos
me ferir nos espinhos
eu saio gloriosa
como a mais bela das rosas
eu saio, eu sobressaio
a vida não é apenas um ensaio
se durmo nas dobras do tempo?
estou desperta
e digo que estou abrigada
sou muito amada


sonia delsin 


ÉS PROMESSA DE PAPEL

cartas
cartas
jogadas
espalhadas
pelas calçadas
promessas de papel
iniquidades
embaixo do céu


leio-as
coração sangrando
amasso-as
amarroto-as
me prometendo
vou queimá-las todas
esquecer
exorcizar em mim este amor
ainda que muito me custe
vou deitar meu olhar nas labaredas
à medida que virem cinzas morrerá em mim o sentimento
e não permitirei que outro nasça
nada... nada
quero que reste nada do que fomos
nada mais e nada menos que nada

sonia delsin 



Ó, TEMPO!

o que o tempo faz
o que tempo traz
teus olhos guardam
tanta dor
tuas mãos se estreitam
teus olhos me espreitam
tu no ontem...
e hoje
hoje tu és solidão
e  um grande coração
ó, tempo!
que fazes com os seres?
ou não é de tua responsabilidade?
dentro de nós é que existe a felicidade
despertemos para esta verdade

sonia delsin 



SOMOS DO ETERNO

te ouço
no silêncio,
em vozes caladas
te ouço nas
calçadas
dormimos, amor
o sono dos justos
somos tão quietos
e tão falantes
simples
e
elegantes
somos vozes despertadas
vozes dentro das madrugadas
se eu te digo vou
eu vou
se digo que tenho asas
eu voo
vou ao teu encontro
com amor tão antigo
sempre te digo
és meu do eterno
eternamente sou tua
embaixo desta muda lua
que mansamente desliza
nada  me toca
nem a mais suave brisa
e penso
repenso
somos do eterno
do silêncio de todos os ontens
sobrevivemos
e sempre e sempre nos reencontraremos

sonia delsin 


COQUEIRO ALTO

fecho os olhos e revejo
coqueiro alto
que beleza!
como é linda a natureza
beira-mar, nordeste do Brasil
a lembrança é deliciosa
repousante
coqueiro alto, coqueiro alto
jamais esquecerei os lugares por onde passei
as praias lindas que visitei
as pessoas que conheci
os lugares todos que vi
sou uma privilegiada
moro numa terra abençoada

sonia delsin 


NO ETERNO GUARDADO

vivo longe de ti
mas te amo no ontem
no hoje
e no amanhã
entre nós tudo existe
e nada me entristece
nem o tempo
e nem a distância
porque somos um do outro no secreto do Universo
pra ti eu canto em prosa e verso
és a razão de meus dias
minhas alegrias
que importa se tenho um minuto ou um século ao teu lado?
serás eternamente o meu amado

sonia delsin 


QUERO-TE JUNTO A MIM

quero-te junto a mim,
assim
assim
quero tua boca buscando a minha
tuas mãos correndo no meu corpo
quero colar-me a ti
e ficar um tempo enorme te amando
quero horas contigo, amor
porque é bom demais
porque meu corpo adora
não vá embora

sonia delsin